
DIVINAS PALAVRAS
Cenário .....uma praça....um ecossistema............ inúmeras tribos convivem com suas diferenças, uma mistura de religiosidade e paganismo, verdadeiramente dionisíaca. Neste local se estabelece um Ato Dramático. Uma mendiga ( Joana Rainha ) morre bêbada e deixa ao lado o filho aleijadinho ( Lauriano).
A Cena ...disposta na calçada.... aos olhares dos espectadores, mais um acontecimento banal, muitos morrem e logo são substituídos, este é o ciclo da praça, mas este acontecimento corriqueiro levará nosso Ato Dramático ao mais puro deleite e confronto que se pode ter da tragédia e comédia humana.
Estabelecido o Ato inicia-se a entrada dos personagens pertinentes a nossa história, que em primeira vista nunca terá algo em comum com nossos caros espectadores.
Apresentações:
Sétimo Miau – mamulengueiro, enganador e manipulador de fantoches e homens, sexualmente bizarro.
Pouca Pena – jovem mulher que se entrega por inocência e talvez com total consciência e prazer nas mãos de seu companheiro e algoz Sétimo Miau.
Miguelin – homossexual animalizado, vulgar, dotado de atroz frieza capaz de conceber por ciúmes um assassinato.
Coimbra – Cão de estimação de Sétimo Miau, companheiro, a ligação direta do seu dono com o Demônio, afinal todos vendem a alma ao diabo pelo menos uma vez na vida.
Tatula – velha vampiresca, aproveitadora, animalizada e destituída de pena, veste-se com os restos de todos.
Pedro Gailo – sacristão da praça, ignorante entendido no latim, homem fraco, influenciável, panaca.
Mari Gaila – Esposa de Pedro, gananciosa, cafona, com tendências libertinas, vive da importância que imagina ter o seu esposo.
Simoninha – Filha do Casal Gailo, reprimida, sexualmente frutada, com problemas emocionais, um desenho distorcido da pureza.
Marica do Reino – Irmã de Pedro Gailo, arcaica, carola nas aparências, manipuladora, a ganância, inveja, mentira e a fé são suas maiores armas.
Temos em seguida representantes autênticos do nosso ecossistema da praça:
As lavadeiras – maledicência no mais puro grau.
Um cego ????????
Um casal de artistas de rua.
Uma imitação da madona.
Um senhor da justiça - que usa do disfarce e da encenação para ditar regras, o que é bem comum na sociedade da praça.
É importante deixar claro que a nossa praça é de fato todas as praças, todos os gabinetes de governos, todo senado, todos os bares, casas etc...etc.....não se faz nenhuma distinção, justamente para não causar magoa , que ninguém diga “EU NÃO ME VI NA PRAÇA”.
Por fim - Lauriano – aleijadinho, dotado de uma enorme instrumento sexual é o centro do nosso Ato Dramático. Será usurpado em todos os direitos que cabe a um ser humano.
Com a morte da mãe passa a ser motivo de luta pela sua posse.
A partir daí às características mais impuras e dignas de condenação de nossos personagens começam a florescer , a ganância, a libertinagem , a fé amoral, a posse indevida, o usurpação de direitos.
Divinas Palavras foi um espetáculo que afora sua estréia , foi durante sua preparação um espetáculo à parte, as pesquisas, a busca pelo escárnio humano foi intensa por parte da equipe de criação.
Personagens tão óbvios mas mesmo assim complexos em sua condição individual gerou uma fantástica busca.
O estudo com uma lupa das obras Bosch , Goya em sua fase negra nos oferece suas pinceladas em bandos de corvos negros, a inspiração na obra “Professor de anatomia” do artista argentino José Gutiérrez Solana, a pesquisa do trabalho de Stelarc com implantes, próteses em seres humanos e robótica.
Tudo isso para poder oferecer ao nosso espectador a prova visual de que quando se vai julgar deve-se antes tirar suas máscaras, despir-se de suas carnes e se mostrar desnudo, assim e somente assim teremos julgamentos justos .
Oferecemos a sociedade uma reflexão de como podemos ser cruéis. Cada personagem deste ATO não é isento de culpa, todos são miseráveis em suas condições, são o espelho de uma sociedade que ainda queima bruxas nos seus quintais.
Fiz questão de deixar um personagem para ser abordado por último. Somente Trasgo o “Demônio” vem alvo, limpo de todas as imperfeições, deixando claro que é de nossa inteira vontade e responsabilidade a condição humana a que nos propomos. O demônio neste espetáculo é isentado do mal, vem elegante e sensual, tal qual deveria ser, o que me faz lembras de um trecho de Rei Lear de Shakespeare que diz mais ou menos assim ...“O homem não é calhorda por causa de conjunções astrais ou por influência de planetas, é assim por que o é”.
Tudo isso leva a um confronto com um “final feliz” , milagre do latim, conviver com o escândalo já faz parte da nossa sociedade.
“Este aleijadinho é a cara do Brasil”, que faz show de MPB na Onu como miquinho de circo, “Bananas para dar e vender”.
“Eu sou uma Artista ....Eu..... sou..... uma.... Artista”, que é condenada não por suas atitudes indevidas junto a sua família e ao aleijadinho, mas sim por fazer sexo, o sexo tão pernicioso perante a sociedade , sua religiosidade, sua hipocrisia, suas frustrações.
O terror das Divinas palavras que afligem a todos.
Apresentações de quinta a segunda no espaço Satyros 01
Ficha Técnica :
Márcio Vinicius : cenografia / figurinos / adereços.
Direção: Rodolfo Garcio Vásquez
Assistência de figurinos : Samanta Marinho
Confecção de adereços : Ulisses Dourado / Sofia Lopes
Produção de campo : Sofia Lopes
Costura : Cleide Mezzacapo e Samanta Marinho

TRASGO E COIMBRA

TRASGO / COIMBRA e MARI GAILA

LAURINAO E PASSANTES DESCARNADOS

MARI GAILA DESNUDA E PASSANTES DESPROVIDOS DE SUA CARNE

MARI GAILA E PASSANTE DESCARNADO

SIMONINHA E LAURIANO

TRETA NO JARDIM

Projeto Conexões 2007: nova dramaturgia para jovens.
Ficha Técnica: Cenografia e figurinos: Márcio Vinicius
Equipe de cenografia: Ulisses Dourado, Sofia Lopes
Costura: Samanta Marinho
Direção: Amauri Fauseti
Escrito por Márcio Vinicius às 01h43
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